"Devo tomar ômega-3 para o olho seco?" A pergunta é frequente, e a recomendação circula há anos. A ideia faz sentido biológico: os ácidos graxos do óleo de peixe (EPA e DHA) têm ação anti-inflamatória e participam da composição do óleo das pálpebras. Mas, quando testado em ensaios grandes e bem controlados, o suplemento não entregou o que se esperava.
O estudo que mudou a conversa
O ensaio DREAM, financiado pelo National Eye Institute dos EUA e publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou 535 pessoas com olho seco moderado a grave por 12 meses. Os participantes foram sorteados na proporção de 2 para 1: 349 receberam 3.000 mg por dia de ômega-3 de peixe e 186, cápsulas de azeite de oliva. Os dois grupos melhoraram — e na mesma medida. Não houve diferença nos sintomas nem nos sinais medidos no exame, como estabilidade da lágrima e coloração da superfície ocular1.
Um segundo ensaio, derivado do estudo VITAL, testou a prevenção: mais de 23 mil adultos sem olho seco receberam 1 g de ômega-3 ou placebo por cerca de cinco anos. A proporção de pessoas que desenvolveram olho seco foi a mesma nos dois grupos2.
E os estudos positivos?
Existem ensaios menores que mostraram benefício, e é deles que vem a fama do suplemento. A revisão Cochrane de 2019 reuniu esses dados e concluiu que pode haver um papel para o ômega-3, mas com evidência incerta e inconsistente entre os estudos3. Mesmo no subgrupo em que o suplemento parecia mais promissor — olho seco associado à disfunção das glândulas de Meibômio —, um ensaio randomizado de 2024 com a forma triglicerídeo reesterificada não encontrou diferença nos sintomas em relação ao controle4.
Um detalhe ajuda a entender a discrepância: nos estudos com placebo bem desenhados, os dois grupos costumam melhorar. Parte do alívio atribuído ao suplemento vem do próprio acompanhamento, do uso regular de lubrificantes e de mudanças de hábito que acontecem ao mesmo tempo.
Como decidir na prática
- O suplemento não substitui o tratamento do olho seco: identificar o mecanismo (evaporativo, deficiência aquosa, inflamação, alterações das pálpebras) orienta o que realmente funciona.
- Uma alimentação com peixes ricos em ômega-3 faz parte de uma dieta saudável — isso é diferente de esperar que cápsulas tratem o olho seco.
- Quem já usa o suplemento por outro motivo e tolera bem não precisa suspender por causa dos olhos; quem pensa em começar deve saber que o benefício ocular não foi confirmado nos maiores estudos.
- Doses altas podem interagir com anticoagulantes e causar efeitos gastrointestinais: converse com seu médico antes de iniciar.