Tratamentos

Ômega-3 para olho seco: o que os estudos realmente mostram.

Dr. Philipe Saraiva Cruz 2 min de leitura 24 Set 2026
Ilustração de cápsulas douradas de ômega-3 espalhadas sobre fundo claro

"Devo tomar ômega-3 para o olho seco?" A pergunta é frequente, e a recomendação circula há anos. A ideia faz sentido biológico: os ácidos graxos do óleo de peixe (EPA e DHA) têm ação anti-inflamatória e participam da composição do óleo das pálpebras. Mas, quando testado em ensaios grandes e bem controlados, o suplemento não entregou o que se esperava.

O estudo que mudou a conversa

O ensaio DREAM, financiado pelo National Eye Institute dos EUA e publicado no New England Journal of Medicine, acompanhou 535 pessoas com olho seco moderado a grave por 12 meses. Os participantes foram sorteados na proporção de 2 para 1: 349 receberam 3.000 mg por dia de ômega-3 de peixe e 186, cápsulas de azeite de oliva. Os dois grupos melhoraram — e na mesma medida. Não houve diferença nos sintomas nem nos sinais medidos no exame, como estabilidade da lágrima e coloração da superfície ocular1.

Um segundo ensaio, derivado do estudo VITAL, testou a prevenção: mais de 23 mil adultos sem olho seco receberam 1 g de ômega-3 ou placebo por cerca de cinco anos. A proporção de pessoas que desenvolveram olho seco foi a mesma nos dois grupos2.

E os estudos positivos?

Existem ensaios menores que mostraram benefício, e é deles que vem a fama do suplemento. A revisão Cochrane de 2019 reuniu esses dados e concluiu que pode haver um papel para o ômega-3, mas com evidência incerta e inconsistente entre os estudos3. Mesmo no subgrupo em que o suplemento parecia mais promissor — olho seco associado à disfunção das glândulas de Meibômio —, um ensaio randomizado de 2024 com a forma triglicerídeo reesterificada não encontrou diferença nos sintomas em relação ao controle4.

Um detalhe ajuda a entender a discrepância: nos estudos com placebo bem desenhados, os dois grupos costumam melhorar. Parte do alívio atribuído ao suplemento vem do próprio acompanhamento, do uso regular de lubrificantes e de mudanças de hábito que acontecem ao mesmo tempo.

Como decidir na prática

Referências

  1. Dry Eye Assessment and Management Study Research Group; Asbell PA, Maguire MG, et al. n-3 Fatty Acid Supplementation for the Treatment of Dry Eye Disease. N Engl J Med. 2018;378(18):1681-1690. doi:10.1056/NEJMoa1709691
  2. Christen WG, Cook NR, Manson JE, et al. Efficacy of Marine ω-3 Fatty Acid Supplementation vs Placebo in Reducing Incidence of Dry Eye Disease in Healthy US Adults: A Randomized Clinical Trial. JAMA Ophthalmol. 2022;140(7):707-714. doi:10.1001/jamaophthalmol.2022.1818
  3. Downie LE, Ng SM, Lindsley KB, Akpek EK. Omega-3 and omega-6 polyunsaturated fatty acids for dry eye disease. Cochrane Database Syst Rev. 2019;12(12):CD011016. doi:10.1002/14651858.CD011016.pub2
  4. Eom Y, Jun I, Jeon HS, et al. Re-Esterified Triglyceride ω-3 Fatty Acids in Dry Eye Disease With Meibomian Gland Dysfunction: A Randomized Clinical Trial. JAMA Ophthalmol. 2024;142(7):617-624. doi:10.1001/jamaophthalmol.2024.1482
Dr. Philipe Saraiva Cruz
Dr. Philipe Saraiva Cruz
Médico Oftalmologista · CRM-MG 69.870 · RQE 71.903 · Caratinga/MG

Conteúdo informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas, procure avaliação oftalmológica.

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