Na borda de cada pálpebra existe uma fileira de pequenas glândulas — as glândulas de Meibômio — que liberam, a cada piscada, uma fina camada de óleo sobre a lágrima. É essa camada que impede a lágrima de evaporar rápido demais. Quando as glândulas entopem ou passam a produzir um óleo espesso, o resultado é o olho seco evaporativo, a forma mais frequente da doença.
Como a disfunção se manifesta
Os sintomas se confundem com os de qualquer olho seco: ardência, sensação de areia, visão que oscila e melhora ao piscar, olhos cansados no fim do dia. Alguns sinais apontam mais para as glândulas:
- bordas das pálpebras avermelhadas ou espessadas, às vezes com pequenos "tampões" na saída das glândulas;
- desconforto pior pela manhã ou após longos períodos diante de telas, quando se pisca menos;
- associação com rosácea, uso de lentes de contato ou de alguns colírios usados por muito tempo.
O diagnóstico é feito no exame da superfície ocular: o oftalmologista avalia a estabilidade da lágrima, a qualidade do óleo que sai ao pressionar a pálpebra e, quando disponível, a meibografia — uma imagem das próprias glândulas que mostra quanto delas está preservado.
A base do tratamento: calor e higiene
O óleo das glândulas funciona como manteiga: espesso, ele não sai. Compressas mornas aplicadas com regularidade, seguidas de massagem suave e limpeza da borda palpebral, continuam sendo a primeira linha do tratamento. A dificuldade costuma ser a constância: o efeito depende de repetir todos os dias, não de uma aplicação isolada.
A gravidade importa. Em uma série de pacientes acompanhados no Japão, os cuidados domiciliares tenderam a funcionar melhor quando a perda glandular vista na meibografia era pequena; nos casos com perda maior, tratamentos feitos no consultório mostraram mais efeito4. Por isso a meibografia ajuda a decidir até onde ir.
Tratamentos feitos no consultório
Termopulsação. Um aparelho aquece a face interna das pálpebras e aplica pressão pulsátil para desobstruir as glândulas em uma sessão. Uma revisão da Academia Americana de Oftalmologia concluiu que uma sessão pode melhorar sinais e sintomas com segurança, mas notou que parte dos estudos teve participação da indústria, que dois estudos independentes não encontraram diferença em relação às compressas em alguns desfechos e que a duração do efeito além de alguns meses ainda é incerta1.
Luz intensa pulsada (IPL). Pulsos de luz aplicados na pele abaixo dos olhos, geralmente combinados à expressão das glândulas. Em um ensaio randomizado com placebo, quatro sessões de IPL somadas à expressão aumentaram o tempo de estabilidade da lágrima mais do que a expressão sozinha2. A revisão Cochrane de 2020, porém, considerou a evidência disponível até então de certeza baixa a muito baixa, com poucos ensaios e relato incompleto de efeitos adversos3. Novos estudos vêm sendo publicados desde então, mas a indicação continua sendo individual.
O que esperar
A disfunção meibomiana é crônica: o objetivo é controle, não cura definitiva. Na prática, o melhor resultado vem da combinação — cuidados diários com as pálpebras, lubrificação adequada, correção de fatores associados (como rosácea, Demodex ou colírios que irritam a superfície) e, quando necessário, procedimentos de consultório. Se o desconforto persiste apesar do colírio lubrificante, vale uma avaliação específica das glândulas.