Olho Seco

Glândulas de Meibômio: a causa mais comum do olho seco.

Dr. Philipe Saraiva Cruz 3 min de leitura 24 Set 2026
Ilustração de uma borda palpebral em arco com a fileira de glândulas de Meibômio em verde-sálvia sobre fundo azul-claro

Na borda de cada pálpebra existe uma fileira de pequenas glândulas — as glândulas de Meibômio — que liberam, a cada piscada, uma fina camada de óleo sobre a lágrima. É essa camada que impede a lágrima de evaporar rápido demais. Quando as glândulas entopem ou passam a produzir um óleo espesso, o resultado é o olho seco evaporativo, a forma mais frequente da doença.

Como a disfunção se manifesta

Os sintomas se confundem com os de qualquer olho seco: ardência, sensação de areia, visão que oscila e melhora ao piscar, olhos cansados no fim do dia. Alguns sinais apontam mais para as glândulas:

O diagnóstico é feito no exame da superfície ocular: o oftalmologista avalia a estabilidade da lágrima, a qualidade do óleo que sai ao pressionar a pálpebra e, quando disponível, a meibografia — uma imagem das próprias glândulas que mostra quanto delas está preservado.

A base do tratamento: calor e higiene

O óleo das glândulas funciona como manteiga: espesso, ele não sai. Compressas mornas aplicadas com regularidade, seguidas de massagem suave e limpeza da borda palpebral, continuam sendo a primeira linha do tratamento. A dificuldade costuma ser a constância: o efeito depende de repetir todos os dias, não de uma aplicação isolada.

A gravidade importa. Em uma série de pacientes acompanhados no Japão, os cuidados domiciliares tenderam a funcionar melhor quando a perda glandular vista na meibografia era pequena; nos casos com perda maior, tratamentos feitos no consultório mostraram mais efeito4. Por isso a meibografia ajuda a decidir até onde ir.

Tratamentos feitos no consultório

Termopulsação. Um aparelho aquece a face interna das pálpebras e aplica pressão pulsátil para desobstruir as glândulas em uma sessão. Uma revisão da Academia Americana de Oftalmologia concluiu que uma sessão pode melhorar sinais e sintomas com segurança, mas notou que parte dos estudos teve participação da indústria, que dois estudos independentes não encontraram diferença em relação às compressas em alguns desfechos e que a duração do efeito além de alguns meses ainda é incerta1.

Luz intensa pulsada (IPL). Pulsos de luz aplicados na pele abaixo dos olhos, geralmente combinados à expressão das glândulas. Em um ensaio randomizado com placebo, quatro sessões de IPL somadas à expressão aumentaram o tempo de estabilidade da lágrima mais do que a expressão sozinha2. A revisão Cochrane de 2020, porém, considerou a evidência disponível até então de certeza baixa a muito baixa, com poucos ensaios e relato incompleto de efeitos adversos3. Novos estudos vêm sendo publicados desde então, mas a indicação continua sendo individual.

O que esperar

A disfunção meibomiana é crônica: o objetivo é controle, não cura definitiva. Na prática, o melhor resultado vem da combinação — cuidados diários com as pálpebras, lubrificação adequada, correção de fatores associados (como rosácea, Demodex ou colírios que irritam a superfície) e, quando necessário, procedimentos de consultório. Se o desconforto persiste apesar do colírio lubrificante, vale uma avaliação específica das glândulas.

Referências

  1. Tao JP, Shen JF, Aakalu VK, et al. Thermal Pulsation in the Management of Meibomian Gland Dysfunction and Dry Eye: A Report by the American Academy of Ophthalmology. Ophthalmology. 2023;130(12):1336-1341. doi:10.1016/j.ophtha.2023.07.009
  2. Toyos R, Desai NR, Toyos M, Dell SJ. Intense pulsed light improves signs and symptoms of dry eye disease due to meibomian gland dysfunction: A randomized controlled study. PLoS One. 2022;17(6):e0270268. doi:10.1371/journal.pone.0270268
  3. Cote S, Zhang AC, Ahmadzai V, et al. Intense pulsed light (IPL) therapy for the treatment of meibomian gland dysfunction. Cochrane Database Syst Rev. 2020;3(3):CD013559. doi:10.1002/14651858.CD013559
  4. Arita R, Fukuoka S, Kawashima M. Proposed Algorithm for Management of Meibomian Gland Dysfunction Based on Noninvasive Meibography. J Clin Med. 2020;10(1):65. doi:10.3390/jcm10010065
Dr. Philipe Saraiva Cruz
Dr. Philipe Saraiva Cruz
Médico Oftalmologista · CRM-MG 69.870 · RQE 71.903 · Caratinga/MG

Conteúdo informativo. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas, procure avaliação oftalmológica.

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