O Demodex é um ácaro microscópico que vive nos folículos dos pelos, inclusive dos cílios. Na maioria das pessoas ele convive sem causar problema. Quando a população cresce demais, porém, provoca uma inflamação crônica da borda das pálpebras — a blefarite por Demodex — que coça, arde e pode piorar o olho seco.
O sinal que entrega o diagnóstico
O achado mais característico são os colaretes: pequenas crostas cilíndricas, como punhos de camisa, que envolvem a base dos cílios. Eles são formados por resíduos do próprio ácaro e costumam ser confundidos com "sujeira" ou caspa dos cílios. No exame na lâmpada de fenda, o oftalmologista identifica os colaretes com facilidade; quando necessário, alguns cílios podem ser retirados para contar os ácaros ao microscópio.
Os sintomas mais comuns são coceira na borda das pálpebras (muitas vezes pior pela manhã), vermelhidão, sensação de corpo estranho e queda ou desalinhamento de cílios. Como o ácaro também afeta as glândulas de Meibômio, a blefarite por Demodex frequentemente acompanha o olho seco evaporativo.
O que a evidência mostra sobre o tratamento
Por muitos anos, o tratamento se apoiou em limpeza das pálpebras e produtos à base de óleo de melaleuca (tea tree oil) e seus derivados. Uma revisão sistemática com 18 estudos encontrou redução dos ácaros com as intervenções avaliadas e maior efeito das opções farmacológicas do que das mecânicas; os efeitos adversos, todos leves, foram mais frequentes com os derivados de melaleuca3.
A novidade dos últimos anos é o lotilaner 0,25% em colírio, um antiparasitário seletivo para ácaros. No ensaio de fase 3 Saturn-2, com 412 pacientes, o uso duas vezes ao dia por seis semanas eliminou os colaretes em 56% dos pacientes, contra 12,5% no grupo que usou o veículo sem o medicamento, e erradicou os ácaros em cerca de metade dos tratados; o colírio foi bem tolerado1. Uma meta-análise de ensaios randomizados confirmou o benefício, mas ressaltou a heterogeneidade entre estudos e a falta de dados de longo prazo2. O medicamento foi aprovado nos Estados Unidos em 20234; sua disponibilidade em outros países, incluindo o Brasil, depende da aprovação regulatória local.
Cuidados que ajudam
- Higiene diária da borda das pálpebras, conforme orientação do oftalmologista.
- Evitar maquiagem velha ou compartilhada, e remover bem a maquiagem antes de dormir.
- Tratar em conjunto condições associadas, como a rosácea e a disfunção das glândulas de Meibômio.
Coceira persistente nas pálpebras e crostas na base dos cílios merecem avaliação: o tratamento certo depende de confirmar a causa, e a reinfestação é possível — por isso o acompanhamento importa.